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O lirismo musical de Bruna Beber
Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 6/10/2009 · nenhum
Reprodução
Detalhe da capa
Bruna Beber lançou a fila sem fim dos demônios descontentes (7Letras) em 2006 e chamou a atenção por seu lirismo que versava sobre o cotidiano e trazia rock n’ roll, desamores, reminescências, tudo envolto em coloquialidades, acidez e humor peculiar. Agora, após integrar seis antologias, aqui (Poesia do dia, Traçados diversos, BLABLAblogue, ENTER), no México (Caos portátil) e na Espanha (Otra línea de fuego), Bruna acaba de lançar balés, pela editora Língua Geral. Ambos os livros são fininhos, mas condensam alguns dos mais pungentes poemas escritos nesta década que vai se acabando.

Agora, as referências podem ser menos pop, mas estão lá amores e desamores, a lida da escrita, mais reminescências, a coloquialidade e a singeleza de um Manuel Bandeira, em uma escrita mais econômica e concisa, mas não menos vigorosa e arrebatadora em seus breves versos, como em “súbito barra óbito”:

meu amor perdeu
os dentes da frente
não consegue assobiar
seu próprio uivo

meu amor perdeu
todos os dentes
não pode mastigar os cacos
de vidro da dor.


Ou em "sentido sem título":

quando penso que queria
que caísse sobre nós
a pedra da gávea

dou aquela risadinha
maligna em seguida
aquela choradinha

invisível, atravessada
entre o olho e a garganta
nem piscando passa.


A seguir, a poeta, nascida em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, e radicada em São Paulo há dois anos, fala sobre o que mudou entre um livro e outro, como lida com os rótulos, e manda um poema inédito para os leitores do Portal Literal.


Bruna, explica aí pra gente o que se passou contigo, com a tua poesia entre a fila sem fim dos demônios descontentes (7Letras, 2006) e este balés (Língua Geral, 2009)?

Bruna Beber.
Saí das casas dos meus pais, mudei de cidade e de estado. Mas já saí do Rio pra SP com o balés na mala, comecei a escrevê-lo no comecinho desde 2007. E aí convivi com ele aqui esse tempo todo até finalmente lançá-lo.

Mudei bastante o livro nesse tempo, entrei num processo esquisitofrênico de gravar poema por poema e ouvir o conjunto e cada um em sua solteirice. E no meio dessa falação descobri que o balés era um livro muito musical. Então o reescrevi inteiro, a mão e à máquina. E passei muitas dezenas de dias numerando e catalogando várias formas diferentes de dispor os poemas.

Até que cheguei a uma seleção de três para escolher uma só, a final. E aí entra o momento em que você põe de lado toda técnica e maluquice aplicada pra sentir o que verdadeiramente deve ser feito. Ele virou o extremoposto do resultado que julguei final um dia.

Em a fila..., tínhamos Maiakovsky, Rô Rô, Graciliano, Neil Young, Nara, Cage. e agora nestes balés, quem comparece, implícita ou explicitamente?

Bruna Beber.
Explicitamente acho que só o Benito di Paula, o Nicanor Parra e o Último tango em Paris, que é um filme que nem gosto tanto, mas vazou. Risos. Mas, implicitamente, acho que um conjunto muito extenso de sensações que só uma grande mudança pode provocar.

Algum drama, receio, com aquela velha estória do segundo livro?

Bruna Beber.
Não, nenhuma mágoa. Claro que é estranho jogar um novo trabalho na praça, mas acho que vai ser assim sempre. E também eu não sou a Amy Winehouse, não tenho muito com o que me preocupar.

A coloquialidade e a singeleza de um Manuel Bandeira me vem à mente ao ler teus poemas. O que o Manuel é para você? Quem mais, Quem mais?

Bruna Beber
. O autor do poema "ALUMBRAMENTO", escrito em 1913. Está no livro Carnaval e me tocou como poucos poemas até hoje. Antes de Carnaval só tinha lido Libertinagem e Estrela da Manhã, duma edição dupla pequenininha que ganhei. Acho uma honra que me comparem ao Bandeira pelo que conheço dele e gosto, mas, honestamente, li pouco sua obra.

E a acidez e o humor, que exalam da tua poesia, vêm de onde?

Bruna Beber.
Não sei. Talvez do meu pai, que é uma mistura de Bill Murray com Didi Mocó, e com quem eu aprendi a rir.

Como é isso de se tornar "uma das principais referências da novíssima geração" e lidar com esses rótulos?

Bruna Beber.
Como diz minha avó "é, tão dizendo por aí..." e aí ela sempre emenda com lendas urbanas, teorias científicas não comprovadas e modas que a imprensa espalha e todas as pessoas começam a adotar, do tipo "adoçante dá câncer". Ninguém nunca sabe se é verdade, mas todo mundo vai parando de tomar adoçante. Eu me acho muito nova para ser referência de alguma coisa, ainda mais na velocidade que as coisas vão.

E só digo que já posso morrer porque um feitiço que joguei pro mundo no primeiro livro virou contra mim mesma. No poema "a novíssima literatura", no qual dizia que a novíssima se preocupava demais em ser estudada, reconhecida etc. E eu provocava dizendo que as crianças, estudando os novos poetas daqui a 100 anos, estariam entendiadas como eu estive lendo Camões com 13 anos e fazendo chifrinho nas fotos, pintando os dentes de caneta azul.

E eis que a Ática e a Scipione lançaram duas antologias que vão na contramão de que a garotada tá estudando a dita "poesia contemporânea" (conceito muito amplo rs) HOJE. Inclusive eu! E pra dizer a verdade, acho emocionante ser lida e discutida enquanto estou viva, e mais ainda por quem tá descobrindo a poesia, a literatura. Do futuro ninguém sabe nada, continuo não me preocupando se meu poemas vão "sobreviver".

Outro dia recebi um e-mail de um menino de 15 que disse ter chegado ao meu livro por uma das antologias, que o colégio dele adotou. Ele me descreveu as coisas que ele sentiu lendo os meus poemas, e isso é tão caro pra mim! Quase chorei de saber que participei do pontapé inicial poético de alguém, fiquei lembrando dos meus primeiros encontros na leitura. Foi lindo.

Diga lá um ou dois poemas que gostaria de ter escrito.

Bruna Beber.
Vou dizer um livro que eu gostaria de ter escrito: Coração tão branco (Companhia de Bolso) [Leia um trecho], do Javier Marías.

E um ou dois que escreveu já após o balés.

estudo sobre primeiras dores


todo urubu titia gritava
urubu, urubu, sua casa
tá pegando fogo

todo estrondo na rua
papai dizia eita porra
aposto foi bujão de gás

todo avião vovó acenava
é seu tio! desquentrou preronáutica
não tenho mais sossego

temi e ainda temo toda espécie
inflamável, lamentei tanto urubu
desabrigado, desejei o fim
da força aérea brasileira

só custei a entender mamãe
convulsa, e o que queria dizer
com seu irmão não vem mais
brincar com você, papai do céu levou.


> Leia mais Bruna Beber no Portal Literal

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# Memória de uma vila perdida no tempo

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# flow - fail - fikdik

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