Publicado originalmente em 24/01/2008.
Confira a seguir um retrato cáustico, porém sincero e apaixonado da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, no Guia antiturístico do Rio de Janeiro (Desiderata), de Marques Rebelo.
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O Rio de Janeiro ainda era capital federal (embora por pouco tempo) quando Marques Rebelo e o cartunista Nássara rabiscaram um projeto para homenagear a cidade que em breve completaria 400 anos. A idéia era reverenciar a cidade com muito humor, ironia e um pouco de acidez também. É daí a origem
do Guia antiturístico do Rio de Janeiro, que a Desiderata lançou no final do ano passado. Como Nássara não está mais por aí, a editora convidou "alguém à altura", no caso, o cartunista Jaguar, consultor da casa.
O texto do livro inicialmente foi publicado em 14 colunas que o escritor mantinha no jornal
Última Hora, de Samuel Wainer. Na introdução, Millôr Fernandes rememora aquele Rio e os momentos em que conviveu com Marques Rebelo, sobretudo na redação de
O Cruzeiro. Por fim, nos brinda com algumas das genialidades de Rebelo – outras o leitor pode conferir no trecho abaixo do Guia -, recolhidas em entrevista feita pelo inventor do frescobol:
– Comecei a escrever porque não tinha escritores no Brasil. Preencho uma lacuna.
– Futebol não é diversão. É sofrimento. Sou América.
– O que me distrai é conversar com os amigos. O mundo não é divertido.
- Meu sentimento dominante é a ternura. Mas no mundo não há mais lugar para a ternura.
Confira a seguir um retrato cáustico, porém sincero e apaixonado cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, como a via o escritor a 48 anos atrás. Impressionante como algumas coisas não mudam.
DA FORMAÇÃO HISTÓRICA – É singela e triste. Por muitos anos foi completamente colônia portuguesa e vivia de tamancos; agora é um pouco subcolônia americana e se compraz nos blue jeans. Se em dado momento foi chamada de Município Neutro, continua parcialíssima e bastante municipal – o que pode ser um encanto sob certos aspectos. A 21 de abril deste (
se refere a 1960), deixou de ser Distrito Federal para ser Estado, isto é, passou de cavalo a burro para uns e de burro a cavalo para outros.
MONTANHAS – Vistas do mar, e com um pouco de boa vontade, dão a impressão de um gigante deitado – é "o gigante que dorme". Alguns espíritos satíricos, ultimamente, garantem que é "o gigante que dorme de touca". Sendo teoria nova, faltam dados para comprová-la. Em todo o caso, a influência dormitiva se manifesta sensivelmente na maioria dos motoristas de praça, que dormem no ponto, mas que não dormem no uso do taxímetro.
MORROS – Chamam-se morros as montanhas com favelas.
FAVELAS – Chama-se favela o compacto conjunto arquitetônico com o qual a clarividência dos governos favorece a moradia dos munícipes humildes. Foi nelas que se inventou o piloti.
Cada unidade desses mundos de zinco e de sarrafo tem o nome de barraco, material muito poeticamente usado nas letras de samba. À primeira vista, os barracos contrariam as leis da gravidade, mas não se conhece a história de um único que tenha caído. Construção que cai no Rio de Janeiro é arranha-céu.
Nas favelas existe sempre uma bica, presente de um vereador progressista, fonte a que se vai de lata na cabeça, mas não é a vasilha, e sim o ato que caracteriza as samaritanas cariocas.
É nas favelas que nascem, crescem e morrem os sambistas anônimos da cidade. As melodias que produzem espalham-se por todo o Brasil e enchem de fama e grana os que as assinam.
CLIMA – Leviano.
BAIRROS – São muitos, um tanto arbitrários, alguns até com nomes bem bonitos, como Retiro Saudoso, Aldeia Campista, Fonte da Saudade, Laranjeiras. Mas o único que realmente existe, porque existe poeticamente, é o de Vila Isabel, em homenagem à Princesa Redentora, berço do jogo do bicho, bairro que tem o castelo d'água mais feio do planeta, e onde dança até o arvoredo e o sol é triste, segundo o samba de um dos seus maiores filhos e cantadores, Noel Rosa. Os demais podem ser considerados meros ajuntamentos ou conglomerados, mais ou menos abandonados pela edilidade, mais ou menos infestados pela malandragem, pela mendicância e pelo meretrício, particular este do qual Copacabana e Leme mantêm a lídima primazia. Só se nota a existência deles nos anúncios de casas para alugar ou de vendas imobiliárias.
SUBÚRBIOS – Há os da Central, da Leopoldina e os da Linha Auxiliar, ferrovias que especificamente os servem com atrasos e desastres, alguns monumentais. São muitos e brotam como cogumelo. Denomina-se subúrbio uma localidade sem água, sem esgoto, sem calçamento, sem escolas, sem hospitais, sem mercados, sem meios de transporte, sem parques e sem jardins, com precária iluminação, porém, com uma população densíssima, não muito compreendida pela gente da zona sul, cujos conhecimentos geográficos são os mais duvidosos ou omissos, mas ultra compreendida pelos candidatos a cargos eletivos, que nela encontram uma farta seara de votos. O que tinha o nome mais bonito mudou de nome. Chamava-se Moça Bonita. Agora, chama-se Padre Miguel.
PRODUÇÃO – As maiores são de paisagem e de piadas. Também produz sambas.
LIMITES – Fica limitado entre o Sonho e o Amor.
JARDINS ZOOLÓGICOS – Há dois. O propriamente dito e a Academia Brasileira de Letras.
ESTÁDIOS – Possui o Maracanã, que é o maior estádio inacabado do mundo!
LIMPEZA PÚBLICA – É composta de uma extensa rede de restaurantes, cantinas e bares de colorida matéria plástica, que serve o mais variado lixo aos seus freqüentadores. Os preços sobem sempre.
FUTURO DA CIDADE – Seja o que Deus quiser.
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